terça-feira, 19 de abril de 2011

18 de abril de 2020.


Rastejei por 85 kilômetros, para não ser encontrado e não encontrar as patrulhas de busca do inimigo. Alimentei-me somente com os biscoitos de alpiste dados na pressa pelo Lontra. Com a baioneta não podia caçar lobos, nem coisa alguma. Fiquei com muita fome, mas se não fosse pelo Lontra estaria bem pior.
Na verdade esse não é o nome do rapaz, mas ficou porque parecia uma lontra. Salvou minha vida duas vezes e agora não tenho como agradecer, o quê fazer? Dar um beijinho? Se tivesse oportunidade, se eu o capturasse novamente, o soltaria em nome da gratidão? Se deparássemos durante uma escaramuça evitaria abatê-lo? Aceitaria trair a guarda para quitar essa dívida? Por vezes pergunto a finalidade do plano de Deus para mim? Por qual razão jogar com a resistência do fiel? As vezes isso angustia, sufoca, fico ansioso. Por isso tatuei sobre o coração essa cobra mordendo o próprio rabo, aplicando em si o próprio veneno. Morde o rabo, deixando uma ponta, o rabo da letra Q; para tres perguntas sobre a vida: qual? Quem? Quando? Tatuagens revelam muito de si mesmo. Tenho outra tatuagem, MOR escrita sobre o dorso da mão esquerda feita antes de conhecer Morena. Disse para a ela que fora uma premonição da nossa relação, na verdade tive uma outra parceira a quem chamava de Amor, rapidamente abreviado para Mor. Tatuagens são janelas da alma sobre a pele. Por uma dessas janelas dispersa a névoa escura dos meus temores.
Deus me salva dos pecados e da perdição após a morte.
A morte corriqueira. Matar para mim é facil. As pessoas morrem na minha mão como galinhas. Esse é meu trabalho. E faço da maneira mais limpa e rápida. Não ha tempo para lamentar, culpar a si ou alguem, não ha tempo para pensar. E nunca penso sobre o trabalho, apenas em faze-lo para ganhar meu pagamento. Sempre foi assim e sempre será.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

14 de abril de 2020.


O fungo é a maravilha da ciência. Em uma vasilha com tampa de vedação hermética põe-se as sementes do fermento, água, para em seguida vedar. Descansar dois dias para para formar a deliciosa, tenra, carne de bactérias. O fungo é produzido pelos açougueiros, assim chamamos os enlatadores do fungo. Os açougueiros cultivam a bactéria envazam nas latas; que podem ser de plástico, alumínio, latão, cerâmica e não necessariamente de metal.
Para fazer o prato, corta-se em pedaços, a massa esponjosa fritando em farta gordura de lobo, fogo rápido, com folhas de roseira. Se tiver açúcar, uma colher rasa, não devendo desperdiçar o tempero tão raro.
Para acompanhar, ferve-se um litro de água e deixe descansar numa infusão com quatro folhas de roseira. Quando esfriar adicione um copo de pinga.
Este é o chamado Banquete do Chefe. É muito caro, somente os Chefes de poço poderiam comer assim, e é oferecido quando alguém deseja impressionar uma mulher, um superior, agradar o amigo que salvou sua vida ou quando ambos suportaram um período de grande provação.
Nada nessa vida merece um Banquete do Chefe. Talvez Lontra, o rapaz que capturei no Cerrado e pendurei na sucupira. No fim daquele dia, indeciso em entregar ou não o inimigo ao Sargentão, uma patrulha inimiga nos encontrou e me rendeu. Soltaram o rapaz e quiseram me enforcar ali mesmo na sucupira. Ao invés disso me amarraram e levaram para o acampamento deles. Andamos toda a noite e pela madrugada. Chegamos ao acampamento de manhã.
Estavam em alerta total. Queriam vingança contra nós, pelo massacre no poço. O guarda que fugiu aproximou-se e bateu sua borduna nas minhas costas, não o deixaram fazer mais nada. Levaram-me até uma estaca e prenderam-me ali com algemas policiais.
O inimigo, numeroso, era mais colorido. Usavam cortes desconstruidos de várias estampas e vários materiais numa mesma veste. Couro, tecido, plástico e metal tudo junto, sem uma ordem aparente. Homens com saias, mulheres em calças militares, cabelos longos, calvos, escovinha, tranças, armações. Era uma tribo, enfim.
Não podiam ser subestimados, eram guerreiros motivados. Tinham habilidade em combate e disciplina um tanto caótica. Militarmente superiores a nós, se levar em conta a quantidade e a capacidade de combate em grupo. Em compensação não tinham muitas armas de fogo, na verdade ví apenas uma escopeta na mão de um dos sargentos. Na maioria eram armados de lanças, piques, lâminas e bordunas. Algumas mulheres eram rijas e tinham o olhar seco e sem emoção, olhar psicopata. Mas brilhavam diante de suas amadas, brincalhonas como adolescentes. Não havia obesos, mas corpos musculosos como jamais havia visto.
Os leopardos humanos caminhavam pelo acampamento, equipados, crispando músculos, tendões, tremendo a pele, feito animais selvagens, exibindo sua pelagem, talvez para impor a ordem no agrupamento, como um policial exibindo seu uniforme e distintivos.
O Chefe do poço deles, em pessoa aproximou-se da estaca e examinou-me a distância, como um funcionário público, apenas para exercer a formalidade diante de seus subalternos. Não pareceu um lider, nem pareceu ter algum poder decisório. Não saberia quem liderava. Parecia que as ações da tribo aconteciam de forma espontânea. Uma roda se formou ao redor da estaca. As pessoas, guardas e peões davam gritos e uivos. Outros cantavam. Mulheres assoviavam ou emitiam gritos estridentes. O Chefe se retirou.
Todos na roda me olhavam, até que um homem leopardo entrou na roda. O barulho aumentou. O guarda fugitivo também quis entrar mas uma das mulheres rijas o segurou pelos cabelos e ele caiu chorando de joelhos. Um dos rapazes de rosto gentil, veio por trás, soltou minhas algemas e mandou-me levantar. Estava claro que eu ia lutar pela minha vida contra o homem leopardo que tinha em suas mão uma lança com um cabo medindo uns 1,5 m. Mais uma lâmina reta e fina. Para mim deram um podador de galhos com um cabo de 0,50 m. com a lâmina medindo 15 cm.
Tanto músculo... A tribo não dominava apenas a gastronomia com a produção dos biscoitos doces, mas sabiam alguma química para processar substâncias anabólicas e aumentar a massa muscular. A isso adicionavam a rotina de exercícios com cargas descomunais. O resultado eram homens e mulheres fortes, robustos e lerdos como touros.
Jamais fiz qualquer coisa próximo de um exercício repetitivo para adquirir potência muscular. Tigres e tubarões não fazem ginástica. Fazem o movimento natural, aceitam desafios e isso lhes tras forças de que necessitam. Para aumentar minha capacidade de combate faço o sexo. Peço a Morena que faça os carinhos mais impossíveis em meu corpo. Há momentos que ela é inclemente. O sexo em sua forma mais intensa estimula os meus neurônios fazendo com que meu corpo tenha a sensibilidade fina e a capacidade de sentir com os músculos.
O homem leopardo iniciou o combate sentencial com uma série de piques, tentando acertar meu abdomen. Uma mulher gritava para ele acertar em minhas pernas primeiro. Ele não quis ouvir a companheira, decidido a encerrar logo o trabalho. Sua lâmina resvalou sobre meu estômago e insistindo, a lâmina entrou pelo baço. A roda urrou quase parando a luta.
O homem leopardo sorriu e parou de atacar, confiante na vitória. Mas apesar disso ele não havia me ferido a ponto de reduzir minha capacidade de lutar. Sua lâmina entrou sobre a pele, chegando a levantar a pele, parecendo a todos que eu estava gravemente ferido. No entanto nenhum órgão foi atingido, nem mesmo uma veia. Nada de sangue. Ninguém percebeu isso. Todos estavam em delírio, certos da minha breve morte.
Preparando-se para outra estocada, o homem leopardo caminhou para a direita, inverteu o passo para esquerda e avançou dando voltas em sua lança, olhando para minha cabeça, sem olhar para meus olhos. Prevendo o golpe e sua direção, saltei contra seu corpo, abraçando-o, cravei a lâmina em seu rim direito. Ele lutou contra o abraço e ao recuar, firmei a lâmina, aproveitando a força de sua fuga para terminar o trabalho. A roda silenciou e o homem leopardo caiu de bruços em espasmos desordenados.
Uma mulher escovinha saltou com uma faca e veio em minha direção, mas Lontra o rapaz que eu havia capturado disse que o Chefe do poço é quem deveria decidir pela minha vida ou morte. E ele havia voltado para o poço deles que entendi que estava seco. Todos acharam isso correto e a roda desmanchou-se. Eu fui novamente algemado. Recebi uma tigela de água marrom mas doce e um biscoito de alpiste grãos e açúcar.
Na madrugada Lontra apareceu no meio de um sonho ansioso, soltou as algemas e com uma trouxa de pano com água e alimentos e a minha baioneta, disse que eu era a primeira paixão que ele deveria deixar desaparecer para despertar a minha atenção...

domingo, 10 de abril de 2011

08 de abril de 2020


A Morena é minha sombra.
Quando o sol brilha sobre mim lá está ela grudada nos meus pés. Mas quando fica tudo escuro, onde esta essa mulher? Foi essa companheira que Deus me deu, o melhor é aproveitar.
Estamos juntos ha um tempo e ela quer um bebê. Até eu gostaria de um menino para cuidar, gostaria. Desde que não chore a noite toda.
Não ha mais crianças. A cada ano as pessoas iam tendo menos filhos e agora nenhuma mulher engravida. Talvez o sal estéril sobre a terra esteja matando as sementes humanas. O fim dos tempos. Nenhuma esperança.
Por mim tudo bem. Para alguém que faz sexo há mais de 20 anos enrolado em látex, nada melhor do que usufruir da natureza.
essa é mesma inflexível natureza que impossibilita a plenitude dos prazeres, agora permite algum usufruto.
Os prazeres.
Antigamente podia-se tomar a deliciosa endorfina, essa maravilha do século 21. O hormônio era retirado das próprias pessoas guardado, processado, em seguida reinjetado. Depois descobriu-se que a endorfina dos cadáveres, em óbito há dois dias, duplicava a sua potência. O Neuronecron aumentava a força, os sentidos, a clareza dos pensamentos e a capacidade de realização simultânea de múltiplas tarefas... e inflava o ego. Não fosse pela degeneração celular, a droga estaria conosco até hoje.
Por isso nada melhor que a tradição, extrair o próprio hormônio, sem enzimas necrófagas para antecipar o inevitavel. Tudo a seu tempo, tudo na sua fórmula, não é preciso correr, chegar antes da hora... saber e aprender não tem idade nem gênero. Essa coisa do Sargentão, o medo do homossexual... livrai-me Deus se alguém ler o que vou escrever, fora o Euzébio a quem confio minha vida, mas aprendi que todos podemos ser múltiplos sexuais. Assim como se diz que tal pessoa é alegre, quando a pessoa fica alegre e logo depois entristece, assim é a verdade única. É interessante a anatomia. No exercício das artes dos contatos opostos, vimos que o clitoris tem a engenharia de um pequeno pênis. No auge da excitação clitoriana, o órgão se eleva, orgulhoso, curioso, ansioso, como se desejando penetrar a pessoas amada! Como se desejando me penetrar. A minha Morena querendo me pegar... ora, ela pode. São idéias, apenas.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

07 de abril de 2020.


Nos carroções do inimigo havia água, facas presas em varas e um butim desconhecido, um biscoito escuro de alpiste e farelos, muito doce. Ninguém havia provado algo tão delicioso. Haviam dois sacos de couro com essa carga preciosa. Sargentão resmungou que aquilo era ”objeto homossexual”, mas devorou quatro biscoitos. Um dos sacos foi preservado para presentear o Senhor do poço. Outro foi guardado pela metade sob cuidados enciumados do Sargentão.
Naquela noite todos participaram de um festim obseno. O Sargentão não enterrou os cadáveres do inimigo, de modo digno; antes, fez os peões amarrarem os cadáveres de costas para estacas plantadas no chão. Em seguida, o embriagado Sargentão fez uma espécie de triunfo diante daqueles cadáveres, insultando-os e declarando-os indignos de vitória. Os peões riam, mas nós os guardas não ficamos nada satisfeitos com aquilo, aqueles cadáveres bem que poderia ser os nossos. O sargento inimigo, o belo rapaz abatido com um tiro no abdomem, tinha os músculos do rosto contraídos de surpresa, mas o rigor da morte dava uma expressão feroz a sua feição juvenil. Era medonho ao mesmo tempo triste. Sabíamos que aquele assassinado não ficaria impune. Deus enviaria um anjo escuro para vingar aquela criança e morreríamos suplicando pelo seu perdão!

Chegamos no poço logo pela manhã de hoje. O poceiro passou a forquilha, provou a terra para sentir o sal e indicou o ponto. Os peões cavaram 20 metros e a água jorrou no fundo do poço. Ainda na escavação, o Sargentão chamou o Deuzo e mandou-o embora, com um despacho para o Senhor do poço. O Deuzo carregou um saco de biscoito, água, um pouco de pinga, montou num jegue e saiu ao meio-dia.
Andei pela região do poço. Era alagado, com muitos caniços e taboas. Mourões de peroba antigos como ruínas de pedra fincados na areia, eram marcos de extintas fazendas. Segui os mourões e descobri uma elevação seca. Estava tomado de canas com vasta cabeleira de longas folhas. Pensei ser outra variedade de caniço, mas as formigas estavam subindo pelas canas. Peguei um caule, batí contra uma pedra e bebi o sumo. Dei um pedaço da cana para o peão que estava ao meu lado e seus olhos brilharam. Era a garapa. Lendário mel da cana. O adoçante do biscoitos do inimigo. O alívio contra o sal trágico. Algo que valia a pena matar. O sonho colorido do alimento adocicado.
Sargentão organizou a defesa. Recrutou os peões sob o soldo de pinga e um quarto de biscoito do inimigo, para formar a defesa da região. Os peões ficaram entusiasmados e armaram-se de lanças de taquaras com pontas queimadas.
Entenderam o recrutamento como uma promoção, uma mudança de status. Dividiram-se em cinco postos onde levantaram pequenas paliçadas de taquara. Estavam todos atarefados. O Sargentão mandou-me vasculhar e vigiar a borda do cerrado.
Sozinho, caminhei pelo alagado até não ouvir mais as vozes e rebuliço dos peões. O chão ficou seco e salgado, numa grande chapa de sal pontilhado de capões dispersos de mata. Entrei num longo trecho de mata, com árvores de dois metros de altura. Trepei numa delas e fiquei sentado, bebericando pinga, vigiando o sal.
Toda nossa pinga é um estoque produzido antes da tragédia da água salgada. Encontramos os grandes tanques com álcool combustivel, gasolina tambem... guardamos tudo em tambores menores. É isso que bebemos junto com a água. E chamamos de pinga. Ninguém sabe como fazer a pinga, todos procuram por novos tanques.
Sabe-se que a pinga vem da garapa da cana doce, mas não sabemos como fazer o doce virar álcool.
Coloquei meio dedo de pinga e completei com um copo de água. Refrescando na sombra fiquei ouvindo o vento. Uma pedra do tamanho de um punho bateu no galho próximo da minha cabeça. Sabia de onde partiu a pedra. Lancei-me no chão e empunhei a espingarda com o último cartucho, que talvez pudesse falhar. Pensei nisso e saquei a baioneta permanecendo ajoelhado com a mão direita na espingarda e a esquerda com a baioneta. Nenhum outro ataque. Senti que estava armado demais, confuso demais assim decidi devolver a baioneta para a bainha.
Ansioso apoiei a espingarda. Voltei para o lado oposto, dois metros. Rastejei para a direita, sem tirar o olho do lugar onde a pedra partiu. Outra pedra contra minha cabeça, levando folhas, quebrando galhos; rolei para o lado e a pedra afundou, espalhando terra sobre mim. Supondo que era uma funda, Levantei e ataquei o atirador.
Ouvi fibras serem tensionadas, ferrolho armado. Pulei para outro lado e outra pedra passou sem me atingir. La estava o guarda que havia escapado de mim, com uma espécie de besta. Estava puxando a corda do arco, quando viu minha aproximação. Sobressaltado, atacou com a besta. levantando a espingarda de cano duplo e grosso, aparei a besta. Virei a coronha e afundei no abdomem do guarda que enrolou-se, ganindo. Por fim rendeu-se.
Era outro rapaz de rosto feminino. Imaginei que se o levasse para o Sargentão ele executaria o moço sem clemência. Não queria isso, mas tambem não podia soltar o inimigo. Simplemente porque não queria ter uma faca nas costas.
Tentei interrogá-lo mas permaneceu calado. Ofereci água, não aceitou. Ofereci pinga, não aceitou. Conforme o calor aumentou, resistiu o quanto pode e por fim, de mãos e pés atados, deitou-se para beber o líquido como um animal. Saciado e mais relaxado aceitou a carne de lobo. O ódio obstinado deu lugar a um choro indignado. Perguntou por que havíamos assassinado o seu sargento e os companheiros. Expliquei que procurávamos o poço, e, como sempre estamos em guerra com outros guardas poços, atacamos primeiro.
O rapaz justificou que faziam pouca guerra. Que quando o inimigo aparece, oferecem os biscoitos doce, que arrefecem qualquer ímpeto inimigo. Como o ataque a eles fora repentino, não tiveram chance de negociar.
Instei-o a revelar como adoçava o biscoito. Respondeu que preferia morrer. Se era assim, amordacei-o e deixei suspenso numa árvore, de ponta cabeça; e fui dormir.

terça-feira, 5 de abril de 2011

05 de abril de 2020.


No dia 04, andamos o dia inteiro. Descascamos a sola do pé. Maldito Sargentão, ordenou marcha forçada só para mostrar quem manda. Se a peãozada rebelar, tomara que cortem a garganta dele e deixem as nossas. Só quatro guardas poço para segurar vinte peões. Se esquentar eu pulo fora. Mas peão é peão, reclama nas costas e na frente de quem manda é “sim senhor, não senhor”. A noite o Sargentão liberou a pinga e ficou tudo na felicidade. Felicidade para os peões. A guarda fez o turno de vigia. O dia inteiro andando e depois encarar o turno. É brincadeira.
Uns lobos atacaram na madrugada, no turno do Euzébio. Euzébio, bom de tiro no escuro, encurralou dois e matou um com o fuzil. O Moça, ao seu lado, atirou no outro lobo, mas ele usava uma escopeta que deveria ter munição de cloreto de sódio, sal grosso. O animal fugiu, ainda bem. Comer a carne salgada nunca... Penduramos a carcaça para escorrer o sangue e assar pela manhã. Assamos o lobo batendo com um ramalhete de alecrim, para ficar bem doce. Ainda bem que pegamos esse lobo, senão comeríamos um dos dois jegues da expedição; da montaria do Sargentão e jegue da água. Se comêssemos o jegue da água, o jegue do Sargentão é quem deveria carregar a água. O jegue, não o Sargentão. Se comêssemos os dois jegues, quem carregaria a água? O Sargentão? É melhor comermos o Sargentão para termos dois jegues carregando água; não ha necessidade de três jegues e nem tem tanta água assim... mas aqui está o lobo assando, sem precisar matar os jegues, nem comer o Sargentão, suarento como ele é, a carne marinada.
Reiniciamos a trilha, logo de manhã; comigo e o Deuzo na vanguarda, o Moça com a escopeta de sal no centro da fila e o Euzébio na retaguarda. O Sargentão e os dois jegues iam na cabeça da tropa dos peões. Durante toda a trilha vimos os lobos aparecendo na borda do cerrado. A peãozada ficou ansiosa, queriam voltar. O Sargentão desceu o bastão nas costas deles e ficaram quietos por enquanto.
No fim da tarde vimos fumaça saindo de um capão há dois quilometros a frente da trilha. O cerrado estava mais verde, indicando área hídrica. Era a região do poço o nosso destino. O Sargentão mandou parar a tropa. Instalou os peões, deu ordem para não acender fogo e mandou eu e o Euzébio vaerificar a origem da fumaça. Aproximamos sem abrir picada na mata, mantendo o silêncio. Era outra tropa, de outro poço. Oito guardas e 36 peões. Tinham duas carroças com dois pares de bois. Estavam desprevenidos. O sargento deles era um rapaz comprido, cara de menina.
O Euzébio ficou e eu voltei para o acampamento. O Sargentão deixou o Deuzo cuidando dos peões e fomos os tres, Sargentão, o Moça e eu para o campo do inimigo. O Sargentão não disse nada, mas mordendo o lábio inferior e com os olhos aguçados não precisou dizer que ia rolar sangue no jantar.
O Euzébio sempre lê o que escrevo e ele pergunta para quem escrevo. Para os filhos que ainda terei, para as futuras gerações de guardas de poço, do nosso poço. Para que saibam como fazer um bom trabalho e cuidar da nossa gente.
O Euzébio perguntou, então, como os pequenos iam ler sem saber, já que ninguém está ensinando leitura. Respondi que da mesma forma que eu e ele aprendemos um pouco, talvez alguém ensine, ou talvez só esteja desabafando a tensão contando um pouco da nossa vida.

A fogueira dos inimigos estava alta, os peões jogavam toras secas. Devia ser um acampamento rotineiro. Guardas e peões estavam misturados, tomando pinga com água. O sargento deles estava numa coberta de sapé conversando com um peão, parecia disciplinador. Sargentão postou o Euzébio e o Moça a seu lado e mandou eu esperar, na borda do acampamento, a 90 graus do vetor de ataque. Com armas em punho entraram no acampamento, atirando. Foi correria para todo lado. Um guarda veio em minha direção, sem perceber minha presença; e outro saiu pelo lado oposto do ataque. Levantei do esconderijo e atirei com a espingarda no meio do peito. Ele caiu para trás com um terceiro olho e a expressão surpresa. O outro guarda viu o colega morrer, mesmo armado com uma espingarda, correu ainda mais. Saí em sua perseguição, com um cartucho. Um toco de lenha bateu na minha espingarda e voou da minha mão. Rolei para o lado puxando a baioneta. Um peão do inimigo pegou outro pedaço de lenha e veio andando em minha direção, com a lenha levantada sobre a cabeça, gritando, xingando. Quando ele desceu a lenha sobre minha cabeça, deslizei para o lado e enterrei a baioneta debaixo da última costela procurando os pulmões e artérias. A carne agarrou a lâmina. Ele queria me pegar, mas prensei seu braço com o ombro, queixo, testa enquanto retirava lentamente a baioneta. Quando ela estava pela metade, mudei o ângulo para romper mais artérias e soquei várias vezes. O peão parou de lutar. Limpei a baioneta na camisa dele e fui procurar o guarda. Andei por dez minutos mas ele desapareceu.
Voltei para o acampamento inimigo e todos os guardas estavam mortos, inclusive o jovem sargento. Os peões estavam reunidos num círculo, sem amarras. O Sargentão ficou feliz com as carroças e os bois e ia deixar os peões para trás. Eu não tirava os olhos dos peões. Fiquei com a baioneta em punho, com a lâmina oculta atrás do braço. Até que um deles saltou com uma faca para matar o Sargentão, mas antes que ele se aproximasse puxei seu braço e ele caiu. Perfurei sua axila, penetrando a lâmina até ela parar num osso. O peão morreu murmurando um nome: -”... Beni, Benício; meu bem Benício...”. Era o nome do jovem sargento morto
O Sargentão enlouqueceu. Mandou matar e matou todos os outros peões: -”Pederastas, viados”.

sábado, 2 de abril de 2011

03 de abril de 2020.

Mais um dia de trabalho. Mais um dia aturando o pessoal do poço. Reclamação, briga e muita conversa, diplomacia para não se queimar. Aquele tiozinho coitado, de papo chatinho, querendo ir para a frente da fila, certamente é amigo de um chefe. O quê fazer? Passar o cara na frente de todo mundo? Não pode. Mas depois aguentar a sova do Sargentão ou do outro chefe? Eu disse que aguentava bem a pancada mas para tudo tem limite... e como tem chefe nesse poço. Acho que tem mais chefe que peão. Gostaria de fugir daqui, rodar o mundo. Sei que não tem nada la fora. Só sal e morte. Talvez outro poço com gente sedenta ao redor, furando a fila, amigo de um chefe, e mais guardas de poço... aqui tenho a pinga e a água suja para vender. La fora o que eu tenho? Falam que é preciso ter futuro, educar para poder ganhar um bom dinheiro, não muito, o suficiente para encontrar uma boa mulher, guardar alguma coisa e criar um filho. Apenas um. A verdade é que gosto de ser furado e furar, não tenho planos de criar filho. Quando alguem tenta me matar fico muito feliz porque em seguida é minha vez de devolver. Somente uma vez preparei uma emboscada. Foi a segunda vez que a baioneta provou o sangue na minha mão. O Senhor do poço mandou matar um sargento, um outro antes do Sargentão. Coitado, era bem amigo da gente. Mas não podia negar uma ordem. Tomei um banho e esperei o sol se pôr. Hora do jantar, cheiro de fritada de fungo. Decidi que não iria invadir a casa. Só mataria se o sargento saisse. Esperei duas horas e ele saiu para fumar. Andei até ele. Reconheceu-me e não estranhou minha presença, parecia esperar algum recado, achou que eu trazia alguma mensagem. Trazia... da morte. Planejei cortar sua garganta deixando um último gesto misericordioso, como possibilidade. Na hora mudei para uma estocada no estômago e puxei um pouco de lado, como um seppuku de samurai. Fiquei feliz por providenciar essa imolação guerreira para alguem de respeito, gente fina. O sangue jorrou sobre mim, ele me agarrou, desferiu vários socos que não aparei, meu olho ficou roxo, tudo bem. Ele era bom. Morreu em seguida fiz uma despedida respeitosa derramando uma dose de pinga. A companheira dele veio com uma barra de ferro, gritando, insultando. Expliquei a situação para ela e mesmo com um ódio rublo, calou-se. Com o Senhor do poço, sempre é melhor esfriar a cabeça.
Ter calma é tão necessário como saber matar.
Quando tenho que matar alguém prefiro não desejar sua morte, mesmo que algumas vezes deseje. Se estou muito irritado inutilizo primeiro o braço armado e aos poucos vou cortando parte por parte, nenhuma artéria, só veias, sorvendo o sofrimento do outro. Se estou com pressa ou se respeito a pessoa vou direto entre a clavícula ou no abdomem. Para matar é preciso um certo amor pela carne de quem se mata, porque os fluidos da vítima caem sobre a pele, olhos, boca até pelo ouvido. Não tem sabão que tire o cheiro de sangue e do suor. Cada um tem seu cheiro e o cheiro fica preso, fazendo-nos lembrar da pessoa que morreu por uma semana ou mais. O cheiro... se enojar nunca mais consegue corta ninguém. Matar é uma trabalho como outro qualquer tem vantagens e desvantagens e um dos problemas é o corte. Para cortar carne tem que passar a lâmina devagar, se passar rápido demais, a carne prende a lâmina. Mas se passar lento demais, o vítima pode revidar, fugir e acaba por não conseguindo cortar nada. O engraçado é que na maioria das vezes quem é cortado fica parado vendo a faca passar na própria carne... se emociona mas não se move.
Por que não sinto culpa em matar? É meu trabalho. Poderia mudar de vida. Espalhar a esperança de que a água voltará em abundância e os homens se purificarão nessas águas sagradas para tornarem-se almas livres... para mim o sol, sal e areia estão tão grudados na carne e no osso que nenhuma água vai conseguir lavar.

03 de abril de 2020.
Estão chamando os guardas para uma expedição. Descobriram um novo poço perto daqui. Estou saindo com eles. Vou escoltar os peões para perfurar o poço. Se o poço estiver limpo, sem sal. Mandarão parte do pessoal para lá. Por aqui vai ficar mais tranquilo. Deviam mandar todo o pessoal babaca. Por mim promoviam o Sargentão a Senhor do poço e mandavam ele para la. Todo mundo saia ganhando.
Deram uma espingarda calibre 40, dois canos e dois cartuchos velhos. A pólvora deve estar vencida mas deve servir para espantar os lobos. O Brasil não tem lobo, tinha um cachorro magrelo que chamavam Lobo-Guará. O que chamam de lobo são uns vira-latas médios, eram domésticos e tornaram-se selvagens; são matreiros, olhos cândidos, chegam mansos perto das pessoas e em seguida atacam para matar, esfomeados, assassinos, inteligentes como os lobos reais.
A morena vai ficar brava. Marcamos de tomar pinga hoje a noite. Primeiro o trabalho. Se quiser procura outro...

02 de abril de 2020

Ontem foi o Dia da Mentira, e pareceu mentira a encrenca que o episódio com aquelas tres mulheres na fila do poço rendeu para mim. Uma delas é namorada do Sargentão. O Sargentão veio desvairado sobre mim. Dando bofetadas. Pegou seu porrete e o jogou sobre meu ombro esquerdo, na minha testa. Não foi para matar, o Sargentão não é louco, sabe que não pode desautorizar o guarda que contém um tumulto. Por isso ontem eu não morri e poderia ter retaliado a agressão. Poderia ter matado o Sargentão. Os colegas perguntaram porque não revidei. Se matasse o Sargentão, o Senhor do poço julgaria a meu favor. Mas eu não quis encrenca. Quem mata o superior tem que assumir seu lugar. Não desejo assumir a chefia, de modo algum. Deus me livre.
Desde cedo aprendi a apanhar. Os meninos quando apanham querem logo aprender a bater, querem aprender o ataque eficaz. Percebi que primeiro se deve a apanhar. Num combate quem sabe suportar os ataques, tem todas as chances de atacar com muito mais eficácia. Quando tinha briga, mesmo quando não era comigo, entrava e levava a sova. As pessoas achavam que eu era louco, devo ser. E hoje, todos sabem que podem me bater mas sabem que podem não sair vivos depois... com a graça de Deus.
No fim do dia o Sargentão esperou os colegas saírem e me chamou na casa da guarda. Disse que dera um cacete na mulher e que ela nunca mais faria o que fez na fila da água. Mandou-a entrar na fila, no dia seguinte, ajoelhar-se a minha frente e lavar meus pés com a água que pegar no dia, com toda a seriedade ritual e devoção cristã. Deu um litro de pinga para mim e me mandou se fuder.